O presidente da CNC (Confedereação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), José Roberto Tadros, afirma que a crise econômica trazida pelo novo coronavírus não tem precedentes na história do país e que setor já contabiliza as perdas. A estimativa é que, em apenas 15 dias, o prejuízo seja de R$ 25,3 bilhões no comércio nos estados do Rio, São Paulo, Minas e Distrito Federal, regiões que juntas representam 52% do faturamento nacional.
Para o empresário de 74 anos, o momento exige coordenação. Ele afirma que o sucesso do Brasil no enfrentamento da crise passa pelo equilíbrio entre a gradual normalização da circulação de pessoas, o apoio para a subsistência dos mais afetados e a prioritária proteção da população do ponto de vista econômico e de saúde.
Veja os principais trechos da entrevista concedida ao R7.
R7 - Qual o impacto da crise no setor?
TADROS - Estimativas apontam que, em apenas 15 dias, no mês de março, o surto de coronavírus tenha provocado prejuízos de R$ 25,3 bilhões no comércio, nos estados do Rio, São Paulo, Minas e Distrito Federal, regiões que juntas representam 52% do faturamento nacional. No turismo, os cálculos são da primeira quinzena de março, e o impacto foi de R$ 2,2 bilhões, uma queda de 17% no faturamento do mês em relação ao ano anterior. A tendência é que as perdas sejam maiores daqui em diante.
R7 - Quem é mais afetado neste momento?
TADROS - Os mais impactados neste primeiro momento são os micro e pequenos empresários, que têm menos fôlego para atravessar este momento. Quanto mais tempo durar a crise e a expansão da pandemia, maior a chance de termos eliminação de postos nas empresas de pequeno porte. De cada 10 empregos, seis são oferecidos nas micro e pequenas empresas, e essas empresas têm condições de crédito menos favoráveis que as grandes empresas de comércio e serviços.
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R7 - Vocês estimam o tamanho do desemprego que essa crise pode gerar?
TADROS - No caso do setor de serviços, o prejuízo tem o potencial de eliminar aproximadamente 115 mil vagas em até três meses. E, no caso do comércio, levando em consideração que as vendas caíram entre 30% e 35%, sabemos que, a cada 10% de queda no volume de vendas, temos um impacto negativo de 6% no nível de emprego do setor, ou seja, podemos ter um impacto de 18% a 20% nas vagas de emprego no comércio.
R7 - Qual a saída que a CNC vê para a crise? O fim da quarentena implantada em estados como o de São Paulo, a manutenção, ou alguma outra estratégia?
TADROS - O momento exige o máximo de coordenação entre os diversos atores envolvidos, governos em todos os níveis, parlamentares, autoridades de saúde, empresários. Os setores produtivos e as entidades que os representam também precisam ser ouvidos na busca por melhores soluções. Precisamos de união, e decisões unilaterais somente dividem.
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Estamos acompanhando a evolução deste cenário e as recomendações das autoridades competentes em relação às medidas de distanciamento social e a forma mais adequada de volta à normalidade para que possamos orientar da melhor forma os empresários do setor terciário.
O equilíbrio entre a gradual normalização na circulação das pessoas, o apoio para a subsistência de pessoas e empresas e a prioritária proteção da população determinará o nível de sucesso do Brasil em superar esta crise sem precedentes.
Por isso, destaco a necessidade de medidas imediatas para proteger as empresas e os empregos não só neste momento da pandemia, mas, principalmente em médio prazo, quando os impactos ainda serão sentidos.
Além dos empresários, também os trabalhadores e a população estão no nosso radar. O Sesc e o Senac estão mobilizados desde o primeiro instante, desenvolvendo ações para conscientização, combate ao coronavírus e prestação de serviços à sociedade. O custeio destas ações deverá somar R$ 1 bilhão a serem alocados nos próximos três meses, equivalente ao corte de 50% nos recursos do Sistema S, proposto pelo governo, que entendemos ser inócuo em termos de benefícios para as empresas.
R7 - O que espera em termos de ações governamentais de apoio ao setor?
TADROS - Para que os impactos desses alarmantes prejuízos possam ser reduzidos para os empresários dos setores de comércio, serviços e turismo, a CNC enviou uma série de sugestões de medidas a serem tomadas no âmbito do governo federal. O documento foi entregue ao presidente da República, Jair Bolsonaro; ao ministro da Economia, Paulo Guedes; e aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre, em 18 de março.
No documento, a CNC lista medidas trabalhistas, tributárias, administrativas e incentivos financeiros necessários para evitar o fechamento de empresas e a perda de empregos nesses setores. Entre as medidas estão a carência de 180 dias para pagamento de tributos que estão em parcelamento e a prorrogação do prazo de recolhimento de tributos federais por 60 dias e não aplicação de multa pelo não recolhimento do tributo, pelo mesmo período; prorrogação da validade de certidões negativas por mais seis meses, visando à habilitação das empresas em processos licitatórios e geração de caixa; entre outras.
R7 - Quais são as orientações que têm sido passadas aos empresários?
TADROS - Também temos proposto aos empresários quatro medidas pontuais para minimizar os impactos. A primeira é manter contato com os clientes; quem está aberto utilizar os contatos on-line, as redes sociais, para minimizar esse distanciamento, e quem está fechado procurar informar, na medida do possível, previsão de data de reabertura.
Segundo ponto tem sido intensificar serviços de entrega, principalmente, ou "take away" para restaurantes, o que incorre em algum tipo de taxa para as empresas, mas neste momento é melhor assumir essas taxas que não ter receita alguma.
O terceiro ponto tem sido fazer o remanejamento de funcionários com férias coletivas ou individuais, minimizando o número de funcionários nas empresas.
Outra medida importante é orientar os funcionários em relação aos protocolos de prevenção e saúde sugeridos pelo Ministério da Saúde e pela OMS (Organização Mundial da Saúde), bem como passar as orientações do plano de saúde da empresa para os funcionários.
Por último, negociar prazos de pagamento com fornecedores e instituições financeiras. As próprias instituições e fornecedores têm oferecido possibilidades de negociação, já que a crise não poupou ninguém e eles também devem incorrer em perdas.
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