Vacinas mostram que Brasil sofre de mau-caratismo epidemiológico

Laurício Monteiro Cruz incluiu veterinários no primeiro grupo a ser vacinado contra Covid-19
Laurício Monteiro Cruz incluiu veterinários no primeiro grupo a ser vacinado contra Covid-19 Reprodução CFMV

Depois da corrupção sistêmica, podemos consagrar mais uma categoria de desvios morais que inviabilizam o Brasil: o mau-caratismo epidêmico. É uma desgraça que atravessa o país de ponta a ponta de agulha e nos escandaliza com a falta de solidariedade e dever cívico – misturados com um egoísmo atávico e sentimento de onipotência de nossas elites corporativas.

Exemplos não faltam, de políticos, representes do Judiciário, endinheirados hipócritas e profissionais da saúde que nunca estiveram na linha de frente, mas se julgam membros da casta superior de brasileiros que tudo pode, inclusive tripudiar sobre a vida alheia.

A última investida dessa alcateia de criminosos (sim, alguns juristas classificam isso como prevaricação e crime sanitário) foi assinada na sala onde deveria prevalecer o rigor e a responsabilidade com uma população que enfrenta uma pandemia: a do diretor do departamento de imunização e doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, Laurício Monteiro Cruz. Por ele, foi assinado ofício incluindo médicos veterinários, técnicos e auxiliares da categoria como grupo que deve ter acesso prioritário à imunização contra a covid-19.

O burocrata Cruz – evidentemente, um veterinário – tenta, no despacho, justificar o que é francamente arbitrário (para não dizer indecoroso, nas terríveis circunstâncias agravadas pela falta de vacinas): "médicos-veterinários atuam em diversas frentes... desempenhando atividades que vão desde a gestão até a vigilância de zoonoses, vigilância ambiental em saúde, epidemiológica e sanitária, o que os torna mais suscetíveis à doença."

O requinte vem ao orientar que "para ter direito, basta o médico veterinário apresentar sua carteira de idendade profissional". Vamos combinar, o diretor do Ministério da Saúde não está preocupado em manter aparências ou praticar o bom senso esperado no exercício da função. O Conselho Federal de Medicina Veterinária, para surpresa de ninguém, não se manifestou contrário ao evidente privilégio.

A favor do membro do Executivo sobra apenas o consolo de saber que ele não está só nesse butim de imunizantes. Estamos vendo diariamente – e em autoincriminatórias fotos de gente ostentando a sua falta de caráter em redes sociais – que a nação brasileira tem muito que aprender em termos de cidadania e responsabilidade social. O problema é que o exemplo tem de vir de cima. E não vem.



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