A campanha do governo contra a gravidez precoce tem zero de doutrinação. Mas os patrulheiros não vão voltar atrás

Saúde e Direitos Humanos lançam campanha em combate à gravidez precoce
Saúde e Direitos Humanos lançam campanha em combate à gravidez precoce Wilson Dias/Agência Brasil 02.01.2019

Tenho certeza que a má-fé que tomou conta do debate público vai impedir que os patrulheiros que fustigaram o governo durante semanas voltem atrás. Vão seguir na mesma linha, só que agora negando a realidade.

Os Ministérios da Saúde e dos Direitos Humanos lançaram agora há pouco, às 16h30, a sua campanha em combate à gravidez precoce. O slogan é “Adolescência Primeiro, Gravidez Depois - Tudo tem seu tempo”.

Será preciso torturar a lógica para encontrar aí a tão antecipada pregação pela abstinência sexual, calcada no que seria uma mistura de desprezo pelas evidências médicas e de crenças religiosas da ministra Damares Alves. Mas quem disse que esse tipo de torturador está em falta por aí?

O filme publicitário também tem zero de doutrinação: “Gravidez não combina com adolescência e traz consequências para toda a vida. Informe-se, reflita, converse com sua família, planeje seu futuro e procure orientações em uma unidade de saúde.”

Nas falas de Damares Alves e Luiz Henrique Mandetta tampouco vai se encontrar qualquer tentativa de atar os jovens com cintos de castidade, ou de retirar das políticas públicas seu arsenal de informações e recursos para a contracepção.

Damares mostrou respeitar jovens e crianças mais do que  muitos que a achincalham: “As crianças e adolescentes pensam, conversam. Não estão aí só pelo instinto sexual.”

O governo deve distribuir 570 milhões de camisinhas ao longo do ano, informou o ministro da Saúde, além de disponibilizar pílulas, dispositivos intrauterinos (DIUs), diafragmas e injeções. Não se deu nenhum passo atrás. “O ingrediente que estamos acrescentando é: reflita”, disse Mandetta.  

Os números apresentados para justificar a campanha são assustadores. A gravidez na adolescência é muito mais comum no Brasil do que na média mundial. De cada mil crianças nascidas no país, 68 são de adolescentes, contra 46 por mil no comparativo internacional. A taxa vem caindo devagar neste século, mas se reduz com maior dificuldade entre adolescentes menores de 15 anos, que têm menor probabilidade de procurar sozinhos os serviços de saúde. Incentivar a conversa com a família e a busca de informações nessa faixa etária pode equivaler, sim, a um remédio.

* Carlos Graieb é jornalista e consultor. Foi secretário de comunicação do Governo do Estado de São Paulo (2017-2018)



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